O Surgimento da Mostra Afro

A semente da Mostra Afro Brasileira Palmares Londrina e a Semana da Consciência Negra segundo o artista plástico Agenor Evangelista, foi plantada em meados de 1984, quando a modelo negra Marilda, o convidou para uma reunião no DCE (Diretório Central dos Estudantes da Universidade Estadual de Londrina). O espaço era frequentado por estudantes e membros do movimento negro. O artista plástico já militava na causa desde 1981, quando estudava Arquitetura e Urbanismo na UEL. Seu reconhecimento e notoriedade já existiam e uma prova disso foi a entrevista em 28 de janeiro de 1983 para a Folha de Londrina, relatando o trabalho de decoração carnavalesco no salão do Grêmio Operário e Recreativo Londrinense, também do carro alegórico com o tema “bumba-meu-boi”, além de ter ganho prêmios e publicado obras em capas de lista telefônica.

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Agenor notava que no meio acadêmico havia um movimento um pouco “elitizado e intelectualizado” e diferente das práticas adotadas nos bairros da periferia, como no Jardim Marabá e Santa Fé. Após a reunião, formou-se um grupo com a participação do Sindicato dos Bancários, representado por Idalto de Almeida e o Sindicato da Construção Civil, tendo a liderança de Flavio Conceição. Com o amadurecimento das ideias, foi escolhido o Bar Zumbi (na Rua Pernambuco e próximo ao Colégio Hugo Simas), um local frequentado por universitários, artistas, músicos e principalmente pela gente do povo, que nascia a Mostra Zumbi dos Palmares em 1985. A mostra seria de 1985 a 1988, no intuito de celebrar o centenário da Abolição da Escravatura no Brasil. Em 1985 houve a exposição com Massayuki Seko, João Werner e José Maria Frutuoso. e Agenor, devido ser estudante de Arquitetura foi convidado para ser diretor do movimento, fazer o salão e a mostra de artes. Era o início da Mostra Zumbi dos Palmares, que nascia no Bar Zumbi e no terreiro de candomblé da saudosa mãe de santo Yá Mukumby, ou Dona Vilma Santos de Oliveira, um local frequentado por integrantes das escolas de samba londrinenses, como a do Jardim do Sol e Quilombo dos Palmares. No ano seguinte o evento ganha visibilidade e torna-se a I Mostra de Arte Zumbi dos Palmares, com o tema “O Negro”. Ele foi realizado pelo Grupo de União e Consciência Negra de Londrina (GRUCON), com exposição no Clube de Engenharia e Arquitetura de Londrina, presidido por Elias Breta. Foram premiados a artista Massayuki Seko de Maringá e os londrinenses João Werner e José Maria Frutuoso. Na comissão julgadora estavam artistas de renome como José Paulo Yokoyama, Henrique Aragão, Dolores Branco, Paulo Mentem e Isaac Camargo.

A mostra era algo novo no cenário cultural, causou impacto e chamou a atenção de diversos segmentos, principalmente da comunidade negra e das escolas de samba, como a Quilombo dos Palmares, Jardim do Sol, Chão de Estrelas, Navegantes do Mar Azul e Bahia Abraça Londrina, que eram fortes e desfilavam no carnaval da Rua Maringá nos saudosos anos 80. “Fizemos um encontro na ACIL (Associação Comercial e Industrial de Londrina), reunimos mais de 300 pessoas e discutimos o movimento negro de Londrina. Posteriormente fomos a Secretaria de Educação e Cultura, da época, conversar com o Daniel Hatti, que coordenava a pasta. Com isso, a Mostra de Artes Zumbi dos Palmares e a Semana da Consciência Negra começou a articular e unir os movimentos já existentes na cidade, como os capoeiristas e as festas nos terreiros, que eram organizados, mas não tinham visibilidade. Quebramos obstáculos e abrimos para a sociedade uma cultura antiga que é a negra, mas pouco conhecida em outros meios”, recorda Evangelista. O impacto foi tamanho que terreiros de umbanda e candomblé fizeram trabalhos na avenida, em meio ao carnaval. Após isso começou a aparecer na mostra a capoeira e até o ambiente da favela, representado por uma casinha e seu interior. Tudo era laico, aberto as demais religiões e irrestrita a raça e cor, buscando não combater o racismo, mas promover a igualdade racial. Foram muitos os resultados positivos, como maior engajamento do movimento na UEL, capoeira e terreiros, além de ajudar a criar e manter o NEAA (Núcleo de Estudos Afro-Asiáticos) e hoje também o NEAB (Núcleo de Estudos Afro-Brasileiro), ambos na UEL.

A Semana da Consciência Negra ajuda a construir a identidade cultural do negro ao ser crítica e fortalece a resistência do movimento perante a sociedade. Uma evidência foi a atuação da Dona Vilma, uma liderança influente que lutou para implantar as cotas raciais na UEL. Isso demonstra a força política e cultural da mostra. O próprio Agenor Evangelista com sua militância e engajamento fortaleceram o movimento, no entanto, com os anos houve uma espécie de extenuação. “No início da mostra não havia negros no poder ou atuando como 6 7 vereador e com o tempo o movimento negro e a mostra se enfraqueceram. Mesmo hoje, com alguns vereadores negros em Londrina, eles são distantes, como o Júnior Santos Rosa, que nunca participou das reuniões ou mesmo o Padre Roque, que não é engajado. O vereador mais atuante e engajado na causa, até hoje, foi o Tito Valle. O resultado desse enfraquecimento foram os dez anos que a mostra se manteve sozinha e houve distanciamento de vários participantes. Posteriormente retornaram e o trabalho começou novamente a se fortalecer. Podemos citar Maria Eugenia, Edo Lucilda, além de alguns professores negros, segmentos evangélicos e o MUCON (Movimento da Consciência Negra)”, cita.

Apesar da força atual da militância, ainda acontecem algumas contradições, como o exemplo do atual presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo. Ao afirmar que o movimento negro é “uma escória maligna e que a escravidão foi um mal necessário”, é hora de questionar opiniões do gênero. Com esse gancho e também a recente morte de George Floyd nos Estados Unidos, por policiais brancos, devemos aprofundar o debate dentro e fora do movimento. Independente de uma concepção política de direita ou esquerda, os negros devem mostrar a sua cara e ir as ruas questionar o preconceito e a violência, mesmo velada e não explícita. “Nos Estados Unidos o racismo é aberto e o branco diz que não gosta de negros. Houve até o apartheid, que não é antigo. Se houvesse a consciência sobre o racismo e os negros do Brasil agissem como os negros norte-americanos, poderia existir um grande conflito, uma revolta popular ou guerra civil. Todos os dias negros são mortos no país. Não somente pela violência, polícia ou tráfico de negros, mas pelo fato de ser negro, ter dificuldades de arrumar emprego e de se alimentar”, aponta.

A causa negra é uma luta sem fim. A Mostra Palmares traz esse debate e transmite uma visão diferente do negro, daquela imposta pela elite. A sociedade vê o negro como jogador de futebol, pedreiro ou segurança. Não são profissões desabonadoras, mas não se vê o negro engajado na cultura e a mostra tem a temática negra, aberta e independente de cor, religião ou opinião política. Nas artes o negro foi muito representado como um escravo envolto em corretes ou sendo açoitado com muito sofrimento. A mostra desconstrói essa visão e identidade cultural ao criar um pensamento e imagem do ser humano livre, da periferia e do povo que vive sua cultura e peculiaridades, como os próprios quadros do Agenor Evangelista, mostrando negras lavando roupas a beira do córrego na Vila Portuguesa ou crianças negras brincando no chão de terra, transformando a visão do negro em algo alegre e real. A semana traz essa identidade e toca na ferida do racismo. Um exemplo é quando ao abraçar um negro, o branco relata sua amizade com outros negros, ou que na sua casa a empregada é negra, trabalhadora e limpa. Quando trabalhamos a questão da arte, vem à tona outra questão: o branco chama o negro a sua casa para fazer batucada, festa ou pagode. Mas quando é outra situação mais glamorosa, ele não é convidado.

Apesar das situações referidas, nestes 35 anos a mostra tem forte penetração na sociedade londrinense, além da cidade ganhar uma atração no seu calendário cultural junto ao tradicional FILO (Festival Internacional de Teatro) e Festival de Música. Nesta perspectiva, a Mostra Palmares caminha sozinha graças as ações do movimento negro e patrocínios alternativos da comunidade e sociedade civil, além da receptividade no meio acadêmico. Mas, caso dependesse apenas do Poder Público ou da Prefeitura, ao mudar a gestão, por questões de “amarrações” políticas e ideológicas poderiam acabar o patrocínio. Devemos ir mais além e pensar: a mostra se difere do FILO e do Festival de Música, que nasceram e sobrevivem graças ao engajamento, organização e trabalho do pessoal da UEL. Ela deve ter reconhecimento cultural e financeiro por ser nacional e também internacional, valorizar as matrizes afros e ter um dos salões de artes mais antigos do Paraná. Salões como de Arapongas, Jacarezinho e da Paisagem, em Maringá, não chegaram aos 35 anos. A mostra, nascida em Londrina, poderia ter surgido em locais como São Paulo, Belo Horizonte, Recife ou Salvador. No entanto ao ser daqui, representa uma cidade de vanguarda, oposição e pioneira devido a Mostra Palmares ser mais antiga que a Fundação Palmares e o Museu do Negro, no Ibirapuera de São Paulo. Além da antiguidade ela revelou e deu espaço a artistas como José Maria Frutuoso, Edson Massussi de Rolândia, o mestre uruguaio Ariel Freire, Bhall Marcos, Kátia Borges, Valdomiro de Deus, Benício Sarro, Nerival Rodrigues, Branquinho de Maputo, Dolores Branco, Paulo Mentem, Henrique Aragão, Massayuki Seko de Maringá, Vânia Itiberi ou Edite Risso.

Uma das causas da resistência, segundo os organizadores, foi por englobar não apenas as artes visuais, mas por ter a participação popular do samba, capoeira e terreiros. A arte foi a bandeira agregadora. Mesmo com a participação do povo e artistas da região, por muitos anos houve, por conta de uma elite, oposição, boicote e veto a mostra. No entanto, muitos ficaram no caminho ou não tiveram o devido reconhecimento. Agenor Evangelista cita que por diversas vezes foi convidado para representar Londrina e o Paraná em eventos, como na Mostra Mitsubishi ou para ser entrevistado em veículos de circulação nacional, como a Revista Trip. Isso gerou protestos de alguns segmentos e houve até quem estivesse com “ciúmes” e fora reclamar junto ao Prefeito ou Secretário de Cultura. Os mesmos, apenas diziam ele não era enviado pelo Poder Público, mas convidado devido o reconhecimento do seu trabalho.

Em 1994 a Mostra Palmares entrou no Calendário de Atividades Culturais de Londrina via prefeito Antônio Belinati. Com aprovação do legislativo e executivo municipal ela foi definida como objeto cultural do município. Porém os novos governantes perderam essa linha e foco, fazendo a mostra cair no esquecimento do Poder Público. Independente disso, ela é de resistência e em 2013, o músico Vagner Nogueira tornou-se uma das lideranças e isso ajudou a desenvolver o evento, após ele se empenhar na busca de recursos financeiros, criar uma diretoria e um currículo dos trabalhos. Junto ao Vagner Nogueira, pessoas como o Otávio Frederico Scandelai da Imobiliária Veneza, Ricardo Taiul e Tito Valle, ajudaram na manutenção financeira e corpo jurídico da mostra.

Com uma nova gestão, a diversidade da mostra se ampliou, deu voz e espaço não somente as artes plásticas, samba ou capoeira, mas também a literatura e música erudita e popular. Foram apresentações de músicos como Joaquim Braga, Neusa Pinheiro, Gegê Alves, Daniele Russi, bandas de rock e de hip hop. Já na literatura temos o destaque para Aldo Moraes, com uma extensa obra não apenas na literatura, mas também na música e educação. Há também o professor de sociologia Luis Melo, que lançou na mostra livros de poesias que enaltecem a cultura negra e também relata o sofrimento do povo negro. Outros destaques são os poetas Bhall Marcos e a Maria Nilza, além da Dona Vilma e do Idalto de Almeida, que produziu o livro “Presença negra em Londrina”, uma referência histórica e fundamental para entender o movimento negro da cidade e a trajetória de pessoas ilustres, como Dr. Oscar Nascimento, Dr. Clímaco, Reverendo Jonas, Jacídio Correia e também um pouco da história da AROL (Associação Recreativa dos Operários de Londrina). Esse viés para a literatura abre espaço para organizar uma futura feira do livro afro devido a esses e demais escritores que interagem e militam no movimento negro. Porém, muitos escritores do gênero tiveram livros e obras lançadas em editoras de São Paulo, Rio de Janeiro ou até mesmo na UEL e também na internet. O trabalho é notório, mas não sai da prateleira do grande centro ou chega a periferia. O pensamento da feira não é ser restrito a escritores locais e regionais, mas expandir a escritores do Brasil. A literatura negra é importante para atender as escolas devido a lei federal 10639, de 2003, que estabelece a obrigatoriedade do ensino de “história e cultura afrobrasileira” dentro das disciplinas que já fazem parte das grades curriculares dos ensinos fundamental e médio.

Outra representação cultural que a Mostra Palmares agrega é o grafite, uma linguagem urbana, através de uma manifestação moderna. Londrina tem vários expoentes que integram o Coletivo CapStyle, com destaque para o Carão, um artista reconhecido internacionalmente e com obras espalhadas em espaços públicos, coletivos e particulares. Não é apenas a periferia que recebe o grafite em muros antes feios e sem vida. Hoje o grafite é a voz da cidade. Quando os vemos, paramos para refletir e concluir que Londrina se torna mais linda com essa representação.

Nestes 35 anos a Mostra Palmares despertou a arte e manifestações culturais que promovem a igualdade racial. Nesta perspectiva tornou-se uma instituição gestora no município e percebe-se a dificuldade, até mesmo dentro dos movimentos sociais, da criação de gestores de artes fundamentados em documentação e organização de debates como a articulação e promoção do carnaval com as escolas de samba na avenida ou em outros espaços. Não há também um museu ou centro cultural voltado a arte popular e ao negro. Tais ações são importantes na preservação da memória. Deve se pensar a criação e mobilização dessas estruturas, onde se mantenha o que já existe em relação a documentação.

Devemos criar a cultura, em parceria com a Câmara dos Vereadores de Londrina e a Assembleia Legislativa do Paraná, de homenagear o negro, fomentar o processo e ações de igualdade racial, independente se for nas artes, ações sociais ou demais trabalhos. Quando se homenageia um negro, como o Dr. Oscar Nascimento, Tito Valle, Ângela Maria ou Agenor Evangelista, você promove que esses cidadãos levantem a moral e de força do movimento ao mostrar o que tais personalidades fizeram pela negritude. Ações voltadas a igualdade merecem diploma e reconhecimento público.